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Sete

Ela andava calmamente pela parede, me ignorava, desfilando sua beleza ao mesmo tempo redonda e esguia: seu corpo, quase completamente composto por um abdome redondo em contraste a um minúsculo cefalotórax e magras pernas compridas, quatro pares movendo-se em perfeita armonia. E foi aí que minha paz de observador se estremeceu.

Algo naquela beleza natural se quebrara e eu acordei como que tomasse um jato d'água fria na cara. Olhei mais atento, cheguei mais perto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete! Falta-lhe uma perna!

Pobre animal, é imperfeito! Deve ter sofrido horrores ao perder um membro. Pobre! Pobre!

Existem artigos que tentam nos convencer que insetos, aracnídeos aí incluídos, não sofrem ao que algo lhe cause dano físico, que se contorcem, tremem e parecem agonizar apenas por uma resposta instintiva à perda de um pedaço de seu corpo. Que seriam mais parecidos com plantas a animais de outras linhas... ora! Até parece que eu acreditaria numa lorota dessas! Claro que sofrem, sentem dor e agonizam...

Agora ela já deixava a parede para trás e andava imperfeita por sobre a superfície da minha mesa. Como pode a natureza, mãe de todas as criaturas, permitir que uma filha sua andasse por aí a desfilar imperfeições? Justo a mais linda de todas, com sete, sete pernas!

Não aguentava mais! A agarrei por uma das pernas restantes, mas não era a que lhe sobrava. Não sabia como faria para segura-la sem lhe causar dano além do que eu precisava para lhe devolver o equilíbrio. Alcancei uma pinça e analisei, com cautela, seu diminuto corpo que contorcia.

Segurei-a com força e delicadeza, tentando não a esmagar sob o peso de meus dedos. Pincei-lhe a pata terceira, a contar da dianteira, no lado direito, e puxei. Sai com facilidade.

Ela retraiu as outras em notável movimento de dor, tremia. Em fração de tempo, soltei-a sobre a mesma mesa de onde a tinha abdusido e de onde fugiu desvairada. Joguei a pata morta no latão de lixo.

Nunca mais a vi. Mas ao menos pude dormir tranquilo aquela noite. Se não corrigisse sua sobra, não teria sossego.

Ainda bem que consegui arrumar aquele defeito... ainda bem!

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