O Sol me lambia o rosto como sua língua, um dia, me lambia a bunda. Eu sentia as papilas gustativas do calor a alisar minha tez de pêssego velho e toda sua secura com ranhuras, rachaduras e células duras. O dia prometia ser mais um dia daqueles amarelos, arrastados, estenuantes, como aqueles textos chatos, cheios de adjetivos em excesso e comparações desnecessárias. Um dia prolixamente quente. Eu só queria me deitar reduzido sobre suas amplas nádegas, pingando suor e me derretendo sobre sua pele macia. Ah, como eu queria me sufocar entre suas coxas trêmulas, a dormecer entre seus seios embriagado com o cheiro agridoce que se cria na parte de baixo das tetas após um dia todo de labuta. Mas lá ia eu mais uma vez para mais um dia filho da puta, com o sol a me lamber a pele através do parabrisa rachado e cagado de pássaros que me lembrava a todo momento como eu era também quebrado e sujo. Preciso levar esse carro pra lavar.
Certa noite, há um bom tempo, sonhei. Não me recordo do sonho todo, apenas do final: um menino tinha criado um mundo inteiro, com toda a complexidade de vidas que um mundo pode ter, mas virtual. Eu observava o menino dando os últimos retoques em sua complexa criação, sentado no chão com um enorme globo virtual onde habitavam inúmeras vidas virtuais enredadas em complexas conexões de dependência. Ele se levantou e ia saindo, então o perguntei se não ia cuidar do mundo que havia criado. Ele respondeu "Se estiver tudo certo, eles vão se virar sozinhos. Se não estiver certo, vão se destruir sozinhos." e saiu pra brincar de bola. Senti que esse menino era Deus.