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Sete

Ela andava calmamente pela parede, me ignorava, desfilando sua beleza ao mesmo tempo redonda e esguia: seu corpo, quase completamente composto por um abdome redondo em contraste a um minúsculo cefalotórax e magras pernas compridas, quatro pares movendo-se em perfeita armonia. E foi aí que minha paz de observador se estremeceu. Algo naquela beleza natural se quebrara e eu acordei como que tomasse um jato d'água fria na cara. Olhei mais atento, cheguei mais perto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete! Falta-lhe uma perna! Pobre animal, é imperfeito! Deve ter sofrido horrores ao perder um membro. Pobre! Pobre! Existem artigos que tentam nos convencer que insetos, aracnídeos aí incluídos, não sofrem ao que algo lhe cause dano físico, que se contorcem, tremem e parecem agonizar apenas por uma resposta instintiva à perda de um pedaço de seu corpo. Que seriam mais parecidos com plantas a animais de outras linhas... ora! Até parece que eu acreditaria numa lorota dessas! Claro que sof...
O lamento solitário fazia coro a tantos outros na multidão. Todos estavam sozinhos juntos.

Sobre Ansiedade e Depressão...

Depois que a fumaça baixou, seus ouvidos ainda zumbiam com o som das explosões. Tudo estava fora de ordem, pensou, tudo foi sacudido, jogado para cima, se amontoado. Que bagunça. Foram dois ataques repentinos. Nem mesmo havia se recuperado do primeiro, o segundo veio. O primeiro foi mais forte, é verdade, mas o segundo provocou mais estragos. Talvez pela fragilidade deixada pela primeira bomba. Agora ele nem sabia por onde começar a se reerguer, isso lhe doía ainda mais, fazia sangrar feridas antigas. O choro parecia seu único amigo, mas às vezes só fazia arder a carne exposta. Andar entre escombros é difícil. Você nunca sabe onde pode se apoiar, pois a qualquer passo errado tudo desmorona novamente. Ainda assim ele caminhava. Um passo de cada vez.

Quem sou?

Facebook, Intagram, Twiter, LinkedIn... hoje em dia, praticamente qualquer rede social pede que você se descreva rapidamente para seus contatos. Isso tem me levado a pensar sobre dois pontos: Quem seriam seus contatos, senão amigos, como são inclusive nomeados pela maior de tais redes? E como poderia eu, me descrever rapidamente? Se muitas vezes não conseguimos nem mesmo nos definir em uma vida inteira! Na história da humanidade, o que nunca faltou foram pensadores, filósofos, questionadores. Um destes, a muito tempo, lá na Grécia, teria dito "conhece a ti mesmo". Sim, Sócrates, mas como posso eu conhecer a mim mesmo? Pois bem, me questiono, como posso eu me descrever, se nem mesmo sei quem sou? O que eu quero? Não pretendo me enganar novamente com aquelas respostas ensaiadas e clichés. Quero saber o que realmente quero, o que me fará andar, o que me motiva, qual meu objetivo hoje, agora. A resposta não vem de Sócrates, nem de Freud ou qualquer outro homem ou mulher que t...

A Mariposa

Madrugada quente, abafada. Apesar do sono, não consigo dormir. Rolo-me para um lado, para o outro, ajeito o travesseiro, empurro a coberta, a puxo de volta. Nada adianta. Os olhos pesam, mas não ficam fechados. Minhas pálpebras pesam toneladas. Olho-me ao redor, o quarto vazio, nada além da escuridão quebrada pela fraca luz que escapa janela a dentro e uma mariposa pousada junto ao forro de madeira. Meu olhar se fixa naquele animal. Ela se mexe, anda um pouco e começa a bater suas asas contra o duro teto. Meu olhar acompanhar o sofrido debate do animal contra o obstáculo imovível. Por mais que tente se libertar daquela prisão, tudo que consegue é se ferir mais e mais. Meus olhos vidrados seguem cada tentativa vã da pobre mariposa. De repente, percebo-me a me debater contra o forro. Me viro para um lado, para o outro, agito minhas asas cada vez mais forte e me jogo contro o forro indiferente. Eu sou a mariposa! Meu coração se acelera, minha vista escurece e minhas v...

Simples

Olhou para o fundo do copo e reparou como a água escorria e se esgotava enquanto, com sua mão, virava o recipiente. Ao mesmo tempo, ouviu e prestou atenção ao som de seus goles, " glump, glump, glump ...". Eram coisas tão simples, rotineiras e banais, mas que nunca havia prestado atenção. Como os vários tons de verde que se emaranhavam na copa de uma figueira, o formato que as asas de um pássaro tomam enquanto ele voa pelos céus, o sútil toque o vento fraco a lhe roçar o rosto. Fechou os olhos, tentou identificar tudo que ouvia, até o mais discreto som. Cantar de pássaros do lado de fora, o trêmulo gemer de um ar condicionado, passou um carro na rua ao lado e alguém arrastava os pés ao longo do corredor. Ouviu mais atentamente e ouviu-se por dentro. Não o trabalhar silencioso dos órgãos, mas o barulho ensurdecedor de suas idéias a se reverberar na caixa craniana. Sabia que em meio àquele caos, cada fio emaranhado o levaria a um novelo com tamanho, cor e textu...

Civilidade? Hoje não, obrigado.

Cá estamos nós, Homo sapiens sapiens  (onde sapiens  deveria significar sábio), a reinar sobre a superfície fina de um insignificante planetinha com nossas tão minguadas sapiências a decidir pelo outro o que é melhor para ele, mesmo sem estar a viver em sua pele ou sentindo suas dores. Nos dizemos civilizados, mas matamo-nos porque nosso time ganhou, ou porque perdeu. Matamo-nos por política, religião, amor, ciúmes, inveja, ganância... Enfim, sempre temos uma desculpa para matar nosso igual, mesmo que por vezes o tratemos por menor ou maior que nós mesmos. Ora, como podemos acreditar sermos civilizados se roubamos dinheiro destinado aos hospitais e escolas públicas? Se jogamos bombas em países alheios por puro interesse econômico ou fanatismo religioso? " Bandido bom é bandido morto! ", mas nos esquecemos que esse bandido é, antes de mais nada, uma pessoa, exatamente como você e eu. Sim, ele fez escolhas erradas. Não, ele não pensa nos outros quando pratica s...