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Entre pingos, respingos, pinceladas e rabiscos Entre cigarros, fumaça e cinza e cores Entre lembranças, lembretes, trabalhos e trubiscos Entre multiplos multicoloridos desamores Entre! Não repara na bagunça. Há quanto tempo! Quer um cafezinho?

Depois de tanto tempo...

Depois de tanto tempo esperando ele percebeu que ela nunca mais voltaria. A dor começou a apertar seu peito com garras cruéis e um nó cresceu em sua garganta sufocando-o. Seus olhos insistiam em ficar molhados, por mais que ele secasse com a manga da camiseta velha, com cheiro de pó escondido por trás do perfume doce. Nunca mais teria o cheiro de seus cabelos recém lavados para lhe embriagar. Nunca mais teria o gosto de seu batom barato no desjejum. Nunca mais teria sua sombra pela janela no fim da tarde. Nunca mais diria “Oi bebê. Como foi seu dia?”. Ele sentiu um gosto amargo na boca e percebeu que era a culpa. Um grito cresceu em sua boca, mas morreu antes de nascer. Um pé atrás do outro, vagarosamente, ele foi andando sem rumo. Ninguém mais ouviu falar dele. Nem mesmo ele.

Sete

Ela andava calmamente pela parede, me ignorava, desfilando sua beleza ao mesmo tempo redonda e esguia: seu corpo, quase completamente composto por um abdome redondo em contraste a um minúsculo cefalotórax e magras pernas compridas, quatro pares movendo-se em perfeita armonia. E foi aí que minha paz de observador se estremeceu. Algo naquela beleza natural se quebrara e eu acordei como que tomasse um jato d'água fria na cara. Olhei mais atento, cheguei mais perto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete! Falta-lhe uma perna! Pobre animal, é imperfeito! Deve ter sofrido horrores ao perder um membro. Pobre! Pobre! Existem artigos que tentam nos convencer que insetos, aracnídeos aí incluídos, não sofrem ao que algo lhe cause dano físico, que se contorcem, tremem e parecem agonizar apenas por uma resposta instintiva à perda de um pedaço de seu corpo. Que seriam mais parecidos com plantas a animais de outras linhas... ora! Até parece que eu acreditaria numa lorota dessas! Claro que sof...
O lamento solitário fazia coro a tantos outros na multidão. Todos estavam sozinhos juntos.

Sobre Ansiedade e Depressão...

Depois que a fumaça baixou, seus ouvidos ainda zumbiam com o som das explosões. Tudo estava fora de ordem, pensou, tudo foi sacudido, jogado para cima, se amontoado. Que bagunça. Foram dois ataques repentinos. Nem mesmo havia se recuperado do primeiro, o segundo veio. O primeiro foi mais forte, é verdade, mas o segundo provocou mais estragos. Talvez pela fragilidade deixada pela primeira bomba. Agora ele nem sabia por onde começar a se reerguer, isso lhe doía ainda mais, fazia sangrar feridas antigas. O choro parecia seu único amigo, mas às vezes só fazia arder a carne exposta. Andar entre escombros é difícil. Você nunca sabe onde pode se apoiar, pois a qualquer passo errado tudo desmorona novamente. Ainda assim ele caminhava. Um passo de cada vez.

Quem sou?

Facebook, Intagram, Twiter, LinkedIn... hoje em dia, praticamente qualquer rede social pede que você se descreva rapidamente para seus contatos. Isso tem me levado a pensar sobre dois pontos: Quem seriam seus contatos, senão amigos, como são inclusive nomeados pela maior de tais redes? E como poderia eu, me descrever rapidamente? Se muitas vezes não conseguimos nem mesmo nos definir em uma vida inteira! Na história da humanidade, o que nunca faltou foram pensadores, filósofos, questionadores. Um destes, a muito tempo, lá na Grécia, teria dito "conhece a ti mesmo". Sim, Sócrates, mas como posso eu conhecer a mim mesmo? Pois bem, me questiono, como posso eu me descrever, se nem mesmo sei quem sou? O que eu quero? Não pretendo me enganar novamente com aquelas respostas ensaiadas e clichés. Quero saber o que realmente quero, o que me fará andar, o que me motiva, qual meu objetivo hoje, agora. A resposta não vem de Sócrates, nem de Freud ou qualquer outro homem ou mulher que t...