Pular para o conteúdo principal

Muito Uísque na Jarra

Whiskey in the Jar é um canção tradicional irlandesa cantada a centenas de anos, muito tempo antes de você ouvir James Hetfield a cantando em uma casa cheia de mulheres embriagadas ou Phil Lynott carregando seu sotaque irlandês junto aos dedilhados de Eric Bell. Na verdade, esse verdadeiro clássico do rock nasceu bem longe do rock.

A música conta a história de um cara que, ao andar pelas estradas de Cork e Kerry, avista um oficial militar contando dinheiro. O cara assalta o oficial com sua pistola e espada e leva todo o dinheiro, mas sua mulher (ou amante) o trai e ele é surpreendido durante a noite pelo oficial vindo em sua direção, ele atira no oficial e acaba na prisão, com uma bola acorrentada em seu pé e whiskey na jarra. Na verdade não fica muito claro se ele conseguiu matar o oficial.

Alguns historiadores apontam que esta canção tem várias passagens e até a trama principal muito parecidas com a balada de Patrick Fleming, um salteador irlandês que assombrava as estradas de Cork e Kerry e morreu enforcado por isso.

Mas vamos à canção em si.

The Dubliners (1967 ou antes)

A banda irlandesa The Dubliners gravou a música Whiskey in the Jar no álbum More of the Hard Stuff, de 1967, mas, ao que tudo indica, já a executava em seus shows muito antes disso. Obviamente o ritmo não tem nada do metal pesado do Metallica, está muito mais para música de taverna irlandesa mesmo, com direito a flautinha e banjo no meio dos instrumentos.

Apesar de essa ser a primeira versão gravada que realmente fez algum sucesso, há registros de várias outras versões gravadas entes dela.

Thin Lizzy (1972)

Em 1972, no álbum Shades of a Blue Orphanage, a banda de hard rock também irlandesa Thin Lizzy adicionou um pouco de peso na canção irlandesa, produzindo um dos clássicos do rock, entrando para as paradas de sucesso do Reino Unido e colocando mais uísque na jarra.

Jerry& David Grisman ( 1996)

Jerry Garcia, o lendário guitarrista e vocalista da banda Greatful Dead, lançou junto com seu amigo, o músico David Grisman, o álbum Shady Grove em 1996.

Ali estava novamente a lendária Whiskey in the Jar. O interessante é que nessa versão, a letra inteira muda, e até alguns nomes mudaram, como o Capitão Ferrell que passou a se chamar Coronel Pepper.

Metallica (1998)

Vinte e seis anos depois de Thin Lizzy encher a jarra de uísque nas Terras da Rainha, o Metallica, com o álbum duplo Garage Inc, só com covers de grandes bandas, emplacou de vez a velha balada irlandesa no metal americano.
Com mais peso na batera e guitarras e a dicção higginiana de James Hetfield, o uísque ficou mais etílico, como se fosse bebido em um só gole, exatamente como faz John Wayne em seus filmes.

Lifvens (2004)

Tentando recuperar o clima de taberna, mas ainda mantendo um certo peso, a banda sueca Lifvens gravou Whiskey in the Jar em 2004, no álbum 10 ÅR PÅ KROGEN… Não venha me perguntar o significado, só ouve a música aí!

É Whiskey, Não Whisky

Isso é uma coisa interessante (ou não) a se notar. A música fala que tem whiskey na jarra, e não whisky. Claro que quem não conhece sobre bebidas, mais especificamente sobre uísque, não veria diferença nenhuma além de uma letra “e” sobrando ali no meio, mas acontece que existe sim uma diferença entre o whisky e o whiskey.

A diferença básica é que o Whisky, também conhecido como Scotch é uma bebida escocesa, enquanto o Whiskey, com um “e” a mais, é uma bebida irlandesa. Ambas derivam da palavra usquebaugh que vem do gaélico uisce beatha, que significa água da vida. Mas, quando traduzida para o irlandês a palavra ganhou um “e” que não tem na escócia.
Ah, então a bebida é a mesma, só muda o “e”?
Não! O Irish Whiskey, feito da Irlanda, é destilado três vezes e tem em sua composição 50% de cevada maltada, 30% de cevada não maltada, 10% de centeio e 10% de trigo. Já o Scotch Whisky é destilado apenas uma vez e composto de 60% de uísque destilado de cereais diversos e 40% de uísque destilado de cevada (malt) feitos em várias regiões da Escócia.

Outra coisa, Whiskey in the Jar é uma música original da Irlanda, portanto, estamos falando do Irish Whiskey, não do Bourbon americano, logo, nada de Jack Daniel’s!

Mas é Whiskey ou Água?

A música inteira é escrita com uma linguagem bem coloquial, cheia de abreviações usadas em certos locais da Irlanda, mas duas frases específicas da música intrigam muita gente.

Musha raim dum a doo dum a da

Como a música é centenária, algumas pessoas cogitam que Musha raim dum a doo dum a da pode ser uma corruptela de palavras em gaélico, linguagem que originou algumas línguas usadas no Reino Unido, como o irlandês, por exemplo. Assim sendo, essa frase viria de M’uishe rinne me don amada, que poderia ser traduzido para o inglês como “I made my whiskey for the fool”, ou seja, Eu faço meu uísque para os tolos.

Whack for my daddy-o

Da mesma forma, Whack for my daddy-o, tem muitas conjecturas de tradução, mas nenhuma chega a uma conclusão aceitável. Enquanto uma fala sobre trabalhar para o pai, outra diz algo sobre o álcool ser coisa do Capeta… vai entender!

Um dos estudiosos da língua gaélica ainda levanta uma questão: Tanto a palavra Whisky quando Whiskey vem da palavra gaélica para água… será que dentro da jarra era Whiskey mesmo? Pense bem, o cara está na prisão!

Enfim, beba com moderação. Mas esse conselho não se aplica ao Rock!

Postagens mais visitadas deste blog

Padre Mckenzie matou Eleanor Rigby

Paul McCartney , no ano de 1965, escreveu uma canção sobre a solidão das pessoas. Uma ode melancólica às pessoas tristes e sozinhas no mundo. Curiosamente, nesse trabalho ele só cita duas pessoas, Eleanor Rigby , que dá nome à música, e Padre Mckenzie . Uma coisa que você talvez não tenha percebido é que o Padre Mckenzie , apesar de seu título de homem santo da Igreja Católica, pode apenas ter usado essa pele de ovelha, lê-se batina, para alimentar sua fome de sangue… ou para fugir dela, o que acabou não dando muito certo. Eleanor Rigby, A Solteirona Solitária Elanor Rigby juntava o arroz jogado pelos convidados de algum casamento na igreja que frequentava. Eleanor Rigby picks up the rice in the church Eleanor Rigby, apanha o arroz na igreja Where a wedding has been Onde se passou um casamento Lives in a dream Vive num sonho Waits at the window Espera na janela Wearing a face that she keeps in a jar by the door Usando uma face que ela mantém em um jarr...

Bilhete Suicida

Cansei de tudo isso. Sei que parece egoísta, mas não aguento mais! Cansei de tantos “amigos” que nem olham na minha cara quando cruzam por mim na rua. Cansei de tantas declarações vazias e citações que não se encaixam. Cansei da hipocrisia implícita (e explícita) que me bate no peito impedindo que eu respire, me mova, ande, que eu faça alguma coisa. Cansei! Estou me despedindo desse mundo de falsidades, sorrisos amarelos e corpos embelezados no Photoshop. Cansei dessas mentiras e dessa vida casca de ovo que esconde tanta podridão por baixo, onde ninguém vê. Tchau! Muitos vão pensar “Mas e nós? Vamos sentir sua falta! Não pensa nisso?”, pois é exatamente por isso que ainda não fiz antes o que devo fazer agora. Podem me chamar de egoísta, eu não estarei aqui para me ofender. Alguns poderão, sim, sentir minha falta, mas o tempo cura tudo e vocês vão seguir suas vidas normalmente. Um dia verão as lembranças e sorrirão, mas nem isso há de abalar vossas vidas. Vocês sobreviver...

Uma Piada Sem Graça

A jovem mulher desceu do carro às pressas, segurando uma pasta com vários papéis enfiados de qualquer jeito em seu interior. Enfiou a chave no bolso e começou a andar resmungando em notável tom de sarcasmo e irritação consigo mesma “Muito bem Dra Quinzel. Muito bem! Quem mandou esquecer a revisão do carro? Quem mandou não colocar água no… no… ah! Sei lá o que vai água nessa merda!”. Uma densa fumaça escura subia da parte frontal do veículo. Ela nem pensou em abrir o capô do carro, não saberia nem por onde começar e estava atrasada. O vento frio balançava e batia com raiva os fios loiros do seu cabelo contra sua pele branca e, ao menor descuido da mulher, levou algumas folhas de papel mal colocados na pasta. — Não! — gritou ela com um misto de ira e tristeza nos olhos que marejaram. Ficou alguns segundos olhando as folhas fugindo sem rumo, dançando no ar como se fossem fadas sádicas se divertindo com sua desgraça. Então ela se virou e continuou andando a passos firmes e apr...