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O Menino que Não Gostava de Azul

“Mais um dia”, pensou. Abriu os olhos azuis e fitou com dificuldade o teto pintado de azul de seu quarto de paredes azuis, esfregou os olhos e olhou para o lado, segunda-feira, dia de escola. E sua mãe já gritava lá da cozinha.

“Jonas, desce logo. Seu café está esfriando!”

Levantou-se com preguiça e foi até o guarda-roupas, pegou a primeira camiseta que sua mão alcançou, uma azul, e vestiu vagarosamente com cara de quem quer voltar para a cama. “Só mais cinco minutos”, pensou, mas foi impedido pelo grito de sua mãe.

“JONAS! DESCE AGORA! VAI SE ATRASAR!”
Então desceu as escadas e passou com cara emburrada por sua mãe, que vestia rosa, como sempre.

Antes de chegar na cozinha já sabia o que o esperava sobre a mesa: um prato branco de porcelana, sem desenhos, com ovos fritos, duas fatias de pão e ao lado de um copo de suco de laranja. Todos os dias era a mesma coisa, hoje não seria diferente… não foi.

Ele não reclamou. Comeu e pegou sua mochila azul, toda azul, e se arrastou para fora. O ônibus amarelo o esperava, entrou.

Passou por um, dois, três pares de bancos e se sentou no quarto, do lado direito, ao lado de seu colega Michel, como sempre fazia durante os dias de semana. E, nenhuma surpresa, Michel estava trajado com uma camiseta lisa e azul.

Aliás, como todos os meninos que estavam naquele ônibus. Assim como o motorista e todos os homens e meninos que estavam do lado de fora do ônibus, em todo o país. E as mulheres e meninas, rosa.

“Que saco!” pensou. Jonas já não aguentava aquela ‘mesmice chata e entediosa’ todo santo dia. Mas não tinha coragem de reclamar.

Imagina só? O Jonas? Aquele que não gosta de azul. Aquele ridículo. Aquele… diferente!

Arrepiou-se quando o pensamento passou por sua cabeça. Olhou para fora da janela e focou em qualquer coisa que o ajudasse a embaçar esse pensamento perigoso.

Imagina só se ele resolvesse usar uma camiseta verde, pra variar, igual às folhas daquela árvore lá fora? Será que existe isso? Camiseta verde? Nem deve existir. Mas seria legal se existisse.

E se cada um pudesse usar a cor que quisesse? Se cada um pudesse expressar o que gosta. Cada onde, como e porquê que têm em sua cabeça. Seria tão legal se o mundo não fosse tão padronizado e chato e monótono…

Censurou-se internamente balançando a cabeça em sinal negativo e perguntou a Michel quais eram as novidades.

“Nenhuma”, Michel respondeu no susto. Estava tão distraído em seus pensamentos que mal se dera conta da presença de Jonas ali, ao seu lado.

É que Michel, umas duas quadras atrás, vira uma berinjela caída ao chão e pensava como seria legal usar uma camiseta roxa.

Mas ele não podia falar isso pra ninguém. Imagina só? O Michel? Aquele que não gosta de azul. Aquele ridículo. Aquele… diferente!

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