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ao Anjo Ceifador

Ao Anjo Ceifador, ou seja lá qual forma se apresente, se é que lê esses escritos mortais, ou se qualquer pessoa viva o saiba contactar, peço favor que o informe sobre esta carta, que trata de meus desejos para minha hora final, vindoura, sabe-se lá quando.
Aliás, que fique claro que não me acho tão importante a ponto de talvez requerer isso ou aquilo de tão atarefada entidade ou ser, muito menos te peço por tempo, que seja antes ou depois. Não. Tenha apenas um bocado de piedade e paciência, leia este bilhete e decida, talvez com base nas minhas boas ações em vida, se mereço essa atenção.
Do muito que li sobre esta hora em que toda uma vida finda, independente de quantos recursos o findado possuía, pouco entendi e muitas dúvidas me brotaram à mente. O que ocorre depois pouco importa, se vamos a algum outro plano ou se apenas apagamos, deixamos de existir, tanto faz, o que me assombra é o momento derradeiro. Será um abraço quente ou um beijo gelado? A vista embranquece em luz ou se afunda em escuridão? Essas dúvidas não acho justo ter sanadas, visto que nenhum outro mortal as tem, acredito eu.
Não. Outros são meus pedidos. Ouça com atenção e pense com caridade. Quando vier me buscar, ao descer sua foice sobre a tosca linha de minha vida, o faça de forma rápida, se possível, indolor. Não me obrigue a ficar numa cama, sendo peso sobre as costas de outras pessoas que muito mais têm a fazer, como tocar suas próprias vidas e esperarem sua hora derradeira. Não, apenas me leve, mas antes, eu te suplico, me permita perceber.
Quero saber que estou morrendo, quero entender o que me acontece e quero, isso mais que tudo, ver o rosto de quem me leva. Quero ver tua face, para então, fechar os olhos e não ver mais coisa alguma.

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